O Vendedor de Pérolas

estante_mini.gifO Jorge, há quase dez anos, todos os dias, pega o trem em Anchieta, na baixada fluminense e, depois de uma longa viagem, espalha  livros e revistas entre uma árvore e uma caixa colectora de lixo, na porta da Igreja da Santíssima Trindade, aqui no Flamengo. São doações dos moradores que, através da livraria improvisada, reciclam suas bibliotecas. Chegou por aqui, à primeira vez, vendendo balas, ganhou uns livros do pessoal da reciclagem da Igreja e foi ficando.  Educado, sensível, sempre preocupado com a família, sonhando com um futuro melhor para os filhos.
Sabe essas pessoas que batem no coração da gente e ficam? Assim foi com o Jorge e sua família.   Sempre dou uma paradinha no caminho do trabalho para trocar dois dedos de prosa com ele. Às vezes, ele está tão em crise que fico um tempo conversando, tentando reanimá-lo.  Ora é o rapa que leva os livros, ora é a escassez de doações, ora é a doença da mulher que não sabe se vai ter cura (ela fez uma cirurgia muito delicada e não ficou sarada.).  Às vezes, fica triste por razões dos outros e me conta histórias de pessoas que apanharam no trem, de situações piores que a dele. as, também falamos de coisas alegres, mais positivas. Ideias de como transformar nossos desejos de ajudar os outros em práticas.  Outro dia, contou que está conversando com amigos da vizinhança onde mora para organizar uma espécie de escolinha de futebol no bairro, que é  treinador de um time de futebol infantil e que leva as crianças para jogar com outros times.
A venda dos livros dá algum dinheiro, mas, além das passagens de casa até a “livraria”, ele paga mais de R$ 250,00 de aluguer.
Outro dia, fomos até a casa dele, em Anchieta.   Uma casa triste pelas carências,  mas, que guarda uma sensação de carinho e amor, pela convivência da família.   Sempre ajudo com alguma coisa:  material escolar (são duas crianças, uma de seis, outro de 12), roupa, alguma comida, brinquedos, remédios e, principalmente, afeito e estímulo pra que eles não desanimem e construam alguma coisa mais sólida prós filhos.    
Bem,  essa história é comum a milhões de pessoas por ai. Diferentes histórias, mas com as mesmas raízes.  No entanto, essa me tocou mais de perto: pela persistência, pela sensibilidade,  pela utilidade dos produtos que vende, mesmo sem consciência disso.  Ele vende ostras sem saber o que é uma pérola. Livros que custariam muito mais, em um antiquário da cidade, ele vende a preço de banana de final de feira.                  
Essa história, tão real, tão próxima, me provocava um desejo de fazer alguma coisa, de ajudar de alguma forma.
Foi aí que nasceu a ideia de ajudar a família do Jorge a ter uma casa, revendendo os livros que ele me vende ou os que recebo em doações e destinando o produto da venda para este fim.
Lembrei de quando eu era criança e meu pai reformava a casa onde morávamos. Quando chegavam tijolos, a nossa família e outras crianças da vizinhança nos organizávamos em fila indiana e um passava cada tijolo para o outro até colocá-los no quintal.  Imaginei, agora, que invés de tijolos são livros que alguém doa ao Jorge, que eu compro dele, ou que recebo em doação, passo para algum amigo, que me passa um dinheiro, que vira tijolo e constrói uma casa. 
Livros que se transformam em casa... fiquei tão empolgado com a ideia que ando pensando em continuar transformando livros em outros gestos de solidariedade.   Posso imaginar um projecto e concretizá-lo sem pedir dinheiro aos amigos. Apenas doando parte do meu tempo e lhes vendendo alguma coisa que gostem. 
Depois que a ideia começou a virar realidade, larguei todos os projectos e preocupações com decoração do apartamento. Virou uma "livraria".
Cataloguei os livros.  Coloquei um preço mais barato que em qualquer sebo. Mas, faltava o passo seguinte: falar com os amigos.
Resolvi, então, escrever esse texto, primeira flor atirada no lago da solidariedade.  Da receptividade que receber, com as sugestões ou mesmo desaprovações que vieram, vou aperfeiçoando o projecto. A minha ideia é disponibilizar as listas que fiz no Excel, por e-mail.  Quem se interessar, manda uma mensagem e a gente combina a entrega.   
Um primeiro fruto é certo: propor ideias construtivas aproxima os amigos,  fortalece laços.  E são esses laços que trazem mais prazer e alegria à vida.  E são ideias de solidariedade que nos animam a ter esperança em nosso potencial de construir uma vida melhor.
Um abraço,
Aldo Cordeiro.
Rio, 2006.

NOTA: E assim se foi concretizando um sonho que começou com uma simples ideia.

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LauraBM às 22:58