O raio cósmico ultravioleta

racoleta.jpgO mundo é muito doido mesmo. Dia desses recebi uma mensagem estranha.
Ela dizia que um tal evento de disparo cósmico ocorreria no dia tal e que isso se daria na forma de um raio pulsante ultravioleta de cor azul-magenta fluorescente e que seria disparado das altas dimensões do Universo e que amplificaria a força dos pensamentos e dos desejos de todas as pessoas e que...
Resumindo: a mensagem pedia pra todos, nesse dia especial, largarem o egoísmo e se concentrarem em pensamentos de amor, prosperidade, cura, riqueza, bondade e gratidão.

Ah, eu fiquei preocupado, fiquei mesmo. Com esse raio aí.
Você reparou no jeitão dele? Pulsante. Ultravioleta. Azul-magenta. Fluorescente! Gente, isso é um raio gay... Só faltou dizer que ele descerá acompanhado de uma chuva de purpurina ao som de It´s Raining Man !
Um babado cósmico fortíssimo. Quem diria...
Os etês já foram mais, digamos, testosterônicos.

Ih, será que o raio cósmico ultravioleta transformaria todo mundo em biba?
Quer dizer, transformar os que não são e amplificar ainda mais os que já são? Caramba, mas o mundo já é tão gay... E se eu não quisesse virar biba?
Sim, porque até que eu tô satisfeito no meu modelito hetero.
Nada contra os gays, magina. Sou super-hiper-total-absolutamente-cosmicamente a favor da causa gay. Primeiro porque todas as pessoas deveriam ser o que são, o mundo seria bem mais divertido. E depois tem a questão da matemática, né, fia?
Mais gay igual a menos concorrência.

Consultei uma amiga. Ela já foi abduzida por uma nave do comandante Asthar. Ela até me mostrou uma foto dele: altão, lorão, olho claro, feições delicadas, usa umas roupas vistosas....
Hummm, esse comandante, sei não. Xapralá.
Minha amiga então me explicou que o raio cósmico ultravioleta não me tornaria gay mas que eu deveria esquecer quaisquer pensamentos egoístas e me concentrar seriamente em bons pensamentos pois o raio os tornaria realidade.
Ora, ora... não diga...
Agradeci à minha amiga e voltei pra casa com uma idéia incrível.

Seguinte. Todo mundo ia se concentrar em pensamentos tipo paz e amor entre os povos, equilíbrio ambiental e coizital, né? Aí o raio cósmico ultravioleta amplificaria esses pensamentos a tal ponto que o mundo seria consertado, né? Maravilha, já era tempo. Sendo assim, já que finalmente tudo se ajeitaria, não haveria problema algum se eu puxasse um pouco a brasa pra minha sardinha, né?

Então preparei minha listinha de pensamentos pro raio cósmico ultra...
Vamos logo abreviar o diabo do nome desse raio? É muito comprido e formal.
Então preparei minha listinha de pensamentos pro Racoleta dar uma força.
E treinei a segunda pessoa do plural. Você sabe, essas entidades cósmicas adoram assim um tapetinho vermelho, uma pompa. Eu falei pompa.

Sabedor que a hora mais forte de actuação do Racoleta seria no fim da tarde, quando deu cinco horas lá estava eu na pedra do Arpoador, sentado lá em cima, o Sol se pondo pro lado da Barra, o som das ondas quebrando, o vento nos meus cabelos sedosos, meu olhar suave no horizonte...
Eu tava quase levitando. Até uma camisa azul-magenta eu comprei, acredita?
Ainda bem que ali não tinha nenhum conhecido.

Então puxei o papel do bolso, respirei fundo e me concentrei.
Ó sagrado Racoleta, vós que desceis das altas dimensões e cruzais o espaço para virdes auxiliar os pobres terráqueos, concedei-me a graça de um desejo, é só um, pois que não ambiciono grandes pretensões e, mesmo sabedor que é outra a sua nobre praia, ó fluorescente Racoleta, concedei-me por gentileza... a mulher ideal.


Mulher ideal:
linda, gostosa, dadivosa, bissexual, simples, selvagem, divertida, não-fumante (mas aceita um natural), adora botequim pé-sujo, é conectada à Natureza, não sabota a própria felicidade, não é consumista compulsiva, lhe atraem os mistérios, dança em noite de lua, vive me traindo com muitos livros, anda nua pela casa, é louca por blues, assiste comigo os gols da rodada (e comenta!), sonha em viajar por aí sem destino, chora comigo pelas dores do mundo, adormece em meu ombro, desperta de madrugada e sorri por eu estar olhando apaixonado pra ela, quando a gente tá liso ela faz um miojo maravilhoso, ama uma sacanagem, é especialista na posição ventania no bambuzal e me chama na janela pra ver a filha da vizinha de calcinha.
Pronto!

Imediatamente um trovão ecoou, apesar do céu estar claro.
Depois uma gaivota deu um rasante e, bufo!, soltou um cocô bem na minha cabeça.
Interpretei como bom sinal e dei por encerrado o ritual.
Desci da pedra e fui pra casa. No caminho quis dar a camisa azul-magenta pra um mendigo mas ele não aceitou.

Como já se passaram alguns meses e o mundo continua a mesma merda de sempre, o Oriente Médio aquela confusão, o Bush querendo destruir o planeta e meu time só perdendo, entendi que nem o coitado do Racoleta, com toda a sua boa vontade, conseguiu dar um jeito no egoísmo da espécie. Que pena!

Ou então, arrááá!!! O Racoleta tá tão concentrado no meu pedido que deixou os outros de lado por um momento pra se dedicar somente a ele.
Sim, reconheço que talvez não tenha sido um pedido fácil pra um raio azul-magenta fluorescente. Mas ele tem poder pra isso.
Ó sagrado Racoleta, obrigado, muito obrigado, nem sei como vos agradecer.
Prometo que assim que ela surgir à minha frente, eu mando vos avisar, vós certamente tendes e-mail, né? Ótimo!
Aí vós estareis liberado pra cuidar do resto do mundo.
Até porque de que adianta a mulher ideal se não houver mundo pra eu viajar com ela, né?
Graaande Racoleta.
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8/04/2007
Ricardo Kelmer

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LauraBM às 19:28